sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

NATAL

«Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra, e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda.
- É servida?
A Santa pareceu-lhe sorrir outra vez, e o menino também.
E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.
- Consoamos aqui os três – disse, com a pureza e a ironia de um patriarca – A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.»

Miguel Torga, "Natal" in «Novos contos da montanha».


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